{"id":3853,"date":"2025-01-16T12:00:21","date_gmt":"2025-01-16T15:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/os-sentidos-da-categoria-terapeutico\/"},"modified":"2025-01-16T12:00:21","modified_gmt":"2025-01-16T15:00:21","slug":"os-sentidos-da-categoria-terapeutico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/os-sentidos-da-categoria-terapeutico\/","title":{"rendered":"Os sentidos da categoria Terap\u00eautico"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Maristela Barenco<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra Terapeuta vem sendo utilizada, popularizada e expandida, em diversas culturas e orienta\u00e7\u00f5es, para caracterizar um profissional que trabalha na \u00e1rea da sa\u00fade. Como tudo o que se expande e populariza, essa palavra tamb\u00e9m vem perdendo seu significado h\u00e1 tempos. O objetivo desse breve artigo \u00e9 resgatar esses sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Leloup 1 (2018), a palavra terapeuta que usamos, vem do grego, \u2018therapeut\u00e9s\u2019, mas a partir de uma heran\u00e7a hebraica, \u201cyarhid\u201d. Se o conceito grego significa \u201ccuidar, servir, atender, aliviar\u201d, a palavra hebraica significa \u201c\u00fanico\u201d, \u201cunificado\u201d, \u201calgu\u00e9m que trabalha na unifica\u00e7\u00e3o\u201d: algu\u00e9m que re-liga o Ser. De acordo com o fil\u00f3sofo hel\u00eanico F\u00edlon de Alexandria, terapeutas eram homens e mulheres que, no ano 1 d.C., viviam no Egito, nas proximidades do Lago Mare\u00f3tis. Essas pessoas compartilhavam algumas caracter\u00edsticas comuns: o fato de viverem em Comunidade, de viverem em harmonia secreta com a natureza, de cultivarem uma rela\u00e7\u00e3o com a dimens\u00e3o espiritual e com uma realidade que ia al\u00e9m dessa terrena, palp\u00e1vel, material.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles acreditavam em uma dimens\u00e3o que nos atravessa, mas que vai al\u00e9m de n\u00f3s: o Ser. Para eles, o Ser \u00e9 uma presen\u00e7a que habita o humano, que \u00e9 permanente e infinita. Segundo Leloup, para essa tradi\u00e7\u00e3o, cuidar do Ser era a capacidade de cuidar do que \u2018vai bem\u2019 e poder\u00edamos dizer, do que \u00e9 sempre vivo, naquele que \u2018vai mal\u2019, sua dimens\u00e3o finita e fugaz. Finalmente, os terapeutas se apoiavam em uma antropologia que n\u00e3o opunha corpo e alma, mas, pelo contr\u00e1rio, concebia o humano em seu aspecto f\u00edsico, ps\u00edquico, espiritual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A contribui\u00e7\u00e3o e a releitura de Leloup \u00e9 muito importante ao resgate dos sentidos dessa categoria, porque retoma ao menos uma dimens\u00e3o que vem sendo produzida como aus\u00eancia nas formas de cuidar, e que, n\u00e3o sendo afirmada, aliena qualquer processo de cuidado com o ser humano: a vis\u00e3o l\u00facida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para isso o autor traz dois sentidos etimol\u00f3gicos que est\u00e3o na palavra grega Therapeuta. O primeiro \u00e9 \u2018The\u00f3s\u2019, que significa Deus, mas que na vers\u00e3o latina, \u2018Dies\u2019, significa \u201cDia\u201d. Assim, na base da palavra Terapeuta, est\u00e1 o sentido \u2018daquele que se coloca a servi\u00e7o da Luz, em si e nos outros\u2019. Leloup nos lembra que a Luz \u00e9 o que existe antes da mat\u00e9ria, \u00e9 a mat\u00e9ria como pot\u00eancia. O segundo \u00e9 \u2018Theoria\u2019, que significa \u2018Vis\u00e3o\/Contempla\u00e7\u00e3o\u2019. E aqui vemos que h\u00e1 um sentido mais profundo. N\u00e3o basta existir a Luz, mas \u00e9 preciso a capacidade para v\u00ea-la e contempl\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa incurs\u00e3o etimol\u00f3gica, Therapeuta, ent\u00e3o, seria, segundo Leloup, aquele que aprende a ver claro, e que est\u00e1 a servi\u00e7o daquele que se reconhece cego, para que ele possa reencontrar a sua vis\u00e3o. Mas se a doen\u00e7a \u00e9 uma aus\u00eancia de vis\u00e3o, o que, de fato, segundo esses terapeutas, a pessoa adoecida n\u00e3o enxerga e v\u00ea? Ela n\u00e3o v\u00ea o fundamento vivo e sagrado do seu ser: a presen\u00e7a do Ser, daquele que \u00c9 e sempre ser\u00e1. O Terapeuta, ent\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 aquele que vivifica o outro, atrav\u00e9s da rememora\u00e7\u00e3o do seu fundamento como algu\u00e9m que \u00e9 habitado pelo Ser, essa paisagem eterna e imortal que lhe habita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma tradi\u00e7\u00e3o que, de fato, perdemos, consiste em uma metodologia de cuidado terap\u00eautico, que orienta o processo de cura a partir daquilo que est\u00e1 saud\u00e1vel em um ser que est\u00e1 adoecido: a presen\u00e7a do Vivente. Assim, cuidar do Ser, em uma pessoa, \u00e9 reconhecer a sua sa\u00fade inata, uma dimens\u00e3o em si que nenhuma doen\u00e7a pode corroer ou danificar. Ainda que algu\u00e9m seja acometido por sofrimento, dor e at\u00e9 morte, a tarefa do Therapeuta seria possibilitar que essas crises sejam vistas na claridade de um Ser que \u00e9 eterno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outra passagem, Jean-Yves Leloup nos traz uma imagem mais concreta do que seria essa Medicina do Ser. No Evangelho de Lucas, 8, 22-25, vemos a presen\u00e7a de Jesus e seus disc\u00edpulos, no Lago de Tiber\u00edades: enquanto Jesus dormia no fundo do barco, que era agitado pelas ondas, os disc\u00edpulos estavam aterrorizados. Leloup nos diz que o Ser \u00e9 essa presen\u00e7a dentro de n\u00f3s que dorme, serenamente, o barco de nossa exist\u00eancia, independente das tempestades que experimentamos. A tarefa do Therapeuta \u00e9 lembrar e despertar essa Presen\u00e7a que nos habita. Para ele, cuidar de algu\u00e9m doente n\u00e3o \u00e9 somente tratar das ondas e considerar a tempestade que o agita, mas facilitar que a pessoa recorde dessa Presen\u00e7a no fundo de sua embarca\u00e7\u00e3o, que dorme calmamente, independente das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tenho pensado, como pensadora e terapeuta, que a primeira doen\u00e7a que tem acometido a humanidade capitalista \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a desse Ser dentro de n\u00f3s. Como filhos pr\u00f3digos, deixamos o para\u00edso que nos foi concedido simbolicamente como criaturas, afastando-nos e suplantando, por completo, a liga\u00e7\u00e3o com a fonte criadora, de onde nossa vida emana. Porque esquecemos o Ser, tornamo-nos cegos, perdemos uma vis\u00e3o l\u00facida. E por isso adoecemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para sermos Terapeutas, precisamos, antes de ajudarmos ao outro, reaprendermos a ver claro e a reencontrar a lucidez dentro de n\u00f3s. Para mim, a vis\u00e3o l\u00facida nasce de uma mente que \u00e9 capaz de alinhar aquilo que sente ao que pensa, ao que fala e ao que faz. \u00c9 uma mente alinhada, auto- organizadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se os Terapeutas antigos nos ensinam que o corpo \u00e9 uma esp\u00e9cie de lugar-condi\u00e7\u00e3o em que a Vida (o Ser, o Vivente) experimenta a si mesma de diversas maneiras, precisamos nos perguntar: De que formas n\u00f3s temos possibilitado que a Vida fa\u00e7a express\u00e3o plena em n\u00f3s? Qual tem sido a nossa disponibilidade real para acolher e cuidar da Vida a partir de mim? Fato \u00e9 que sem reencontramos a luz em n\u00f3s, e aprendermos a ver claro, n\u00e3o conseguiremos ajudar aqueles que perderam a sua vis\u00e3o. Fica o convite \u00e0 reflex\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Refer\u00eancia: 1 Leloup, Jean-Yves. 2018. A Sabedoria que Cura. Petr\u00f3polis: Editora Vozes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maristela Barenco A palavra Terapeuta vem sendo utilizada, popularizada e expandida, em diversas culturas e orienta\u00e7\u00f5es, para caracterizar um profissional que trabalha na \u00e1rea da sa\u00fade. Como tudo o que se expande e populariza, essa palavra tamb\u00e9m vem perdendo seu significado h\u00e1 tempos. O objetivo desse breve artigo \u00e9 resgatar esses sentidos. 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