{"id":3587,"date":"2022-05-22T11:36:02","date_gmt":"2022-05-22T14:36:02","guid":{"rendered":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/por-educacoes-vivas\/"},"modified":"2022-05-22T11:36:02","modified_gmt":"2022-05-22T14:36:02","slug":"por-educacoes-vivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/por-educacoes-vivas\/","title":{"rendered":"Por Educa\u00e7\u00f5es Vivas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das caracter\u00edsticas marcantes do Ocidente \u00e9 a conserva\u00e7\u00e3o dos seus inventos e intentos, a conserva\u00e7\u00e3o de um estado de coisas que aconteceram, que foram sendo aprendidas, que foram registradas, que foram sendo ensinadas e perpetuadas. Uma conserva\u00e7\u00e3o que sequestra e captura a experi\u00eancia do pr\u00f3prio viver. Assim, as leis, as regras, os valores, os dogmas, as teorias, os estudos da arte, as metodologias, os ensinamentos, entre outras tantas coisas, tornaram-se mais importantes do que os processos de viver. Aprendemos para preservar e conservar um mundo, muito mais do que para inaugurarmos experi\u00eancias singulares de mundo. Conservar um mundo e um tipo de mundo parece ser muito mais importante do que inventar outros mundos.  Aprende-se sobre o amor, n\u00e3o para melhor amar, mas para conservar uma tradi\u00e7\u00e3o e um vivido. Os livros, nesta tradi\u00e7\u00e3o,  seriam os deposit\u00e1rios de tudo o que se quer conservar. Associamos o saber ao livro, muito mais do que o saber ao viver, ao experienciar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na contra-hegemonia do pensamento ocidental, o pensamento dos povos origin\u00e1rios, povos de tradi\u00e7\u00e3o oral e convivial, constituem, hoje, possibilidades de uma outra alfabetiza\u00e7\u00e3o, de uma outra educa\u00e7\u00e3o, de outras formas de ser escola, de uma outra forma de ser mundo. Escolas Vivas. Assim \u00e9 o Projeto de um Grupo, chamado Selvagem que, entre tantos temas, desde 2018, articulam-se, sobre a coordena\u00e7\u00e3o de Cristine Taku\u00e1, em torno de quatro experi\u00eancias de escolas vivas: a dos Huni Kuin, a dos Maxakali, a dos Guarani e a dos Tukano (http:\/\/selvagemciclo.com.br\/colabore\/).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O eixo dessa ideia, uma esp\u00e9cie de reconhecimento de que os saberes se transmitem em rela\u00e7\u00f5es vivas \u2013 com plantas, em terreiros, na floresta, com os ancestrais, \u00e9 t\u00e3o antiga, t\u00e3o viva e t\u00e3o sofisticada: a de que onde existem estes di\u00e1logos de saberes existem escolas vivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cultura ocidental, e mais precisamente, a cultura do capital, a cultura industrial, a cultura cient\u00edfica e a cultura tecnol\u00f3gica colocaram o ser humano \u2013 ou mais especificamente um tipo de ser humano, no centro da vida e transformaram todas as alteridades em objetos a servi\u00e7o desse humano. Como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver di\u00e1logo com objetos, j\u00e1 que estes n\u00e3o est\u00e3o vivos e nem possuem voz, um tipo de ser humano perdeu a conex\u00e3o com a Vida e a Comunidade de Vida, e tornou-se especialista em saberes \u2013 que s\u00e3o mais conhecimentos e informa\u00e7\u00f5es \u2013 de conserva\u00e7\u00e3o, de um vivido, de um passado, em outras palavras, de coisas que n\u00e3o s\u00e3o vivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da\u00ed que o Mestre quilombola Antonio Bispo dos Santos questiona esse modo de ensinar e aprender, de cunho colonial, que ele chama de sint\u00e9tico, de se ensinar longe da feitura das coisas. Ele questiona, por exemplo, como um engenheiro pode ganhar muito mais do que um pedreiro, por projetar uma casa, se ningu\u00e9m pode morar em um desenho projetado, mas apenas no resultado de uma constru\u00e7\u00e3o feita por trabalho e m\u00e3os humanas? Para Mestre Bispo, a Escola e a Universidade ensinam fora dos lugares de fazer \u2013 quando uma Escola, viva, org\u00e2nica, precisa ensinar na feitura, para se tornar ensinamento, para prescindir de um livro, para ser encarnado em n\u00f3s e para que possamos lev\u00e1-lo onde formos em uma esp\u00e9cie de ethos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste momento de crise planet\u00e1ria e clim\u00e1tica em que nos encontramos, precisamos refundar ou reeditar (nas palavras de Mestre Bispo), as escolas de saber org\u00e2nico, ou as escolas vivas, inspiradas pelos povos origin\u00e1rios. N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel manter a vida em uma sociedade que, como Mestre Bispo nos diz, coloca os av\u00f3s nos asilos e as crian\u00e7as nas creches. Para Nego Bispo, como \u00e9 chamado, o lugar da gera\u00e7\u00e3o neta \u00e9 no colo da gera\u00e7\u00e3o av\u00f3, no embalo de hist\u00f3rias e de tantos di\u00e1logos de saberes \u2013 com as irm\u00e3s plantas, com os irm\u00e3os animais, com as irm\u00e3s \u00e1rvores, com a m\u00e3e terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal como nos chama a aten\u00e7\u00e3o Cristine Taku\u00e1, os saberes s\u00e3o muito mais amplos do que as letras e os n\u00fameros. As escolas capitalistas reduziram a totalidade das rela\u00e7\u00f5es da vida em aquisi\u00e7\u00e3o de palavras e letras. Para conservar um mundo. Para manter a ferro e fogo um mundo. Mesmo que este mundo j\u00e1 n\u00e3o pulse mais, e nem nos fa\u00e7a pulsar. Mesmo que este mundo esteja a acabar com a biodiversidade, com a for\u00e7a da floresta, com a Comunidade de Vida e com a singularidade humana. A quem serve, afinal, uma educa\u00e7\u00e3o morta? A quem serve uma educa\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica? Que saibamos, a tempo e a contento, vivificarmos a Vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/ventoeagua.com\/revistas-online\/revista-35\/por-educacoes-vivas\/\">Coluna da Maristela Barenco na Revista Vento e \u00c1gua &#8211; Ritmos da Terra<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das caracter\u00edsticas marcantes do Ocidente \u00e9 a conserva\u00e7\u00e3o dos seus inventos e intentos, a conserva\u00e7\u00e3o de um estado de coisas que aconteceram, que foram sendo aprendidas, que foram registradas, que foram sendo ensinadas e perpetuadas. Uma conserva\u00e7\u00e3o que sequestra e captura a experi\u00eancia do pr\u00f3prio viver. 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