{"id":3577,"date":"2022-08-09T11:27:46","date_gmt":"2022-08-09T14:27:46","guid":{"rendered":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/a-descolonizacao-como-processo-de-cura-de-uma-medicina-colonial-parte-ii\/"},"modified":"2022-08-09T11:27:46","modified_gmt":"2022-08-09T14:27:46","slug":"a-descolonizacao-como-processo-de-cura-de-uma-medicina-colonial-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/a-descolonizacao-como-processo-de-cura-de-uma-medicina-colonial-parte-ii\/","title":{"rendered":"A descoloniza\u00e7\u00e3o como processo de cura de uma medicina colonial &#8211; parte II"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea est\u00e1 lendo este artigo, sugiro que leia a parte I, onde o tema \u00e9 devidamente apresentado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se manifesta, hoje, o pensamento colonial, nas pr\u00e1ticas m\u00e9dicas? \u2013 Essa \u00e9 a quest\u00e3o deste artigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bom, todo pensamento decolonial ou contra-epistemol\u00f3gico n\u00e3o se encontra pronto. Ele vem sendo constru\u00eddo processualmente. Temos pistas. Todos n\u00f3s, intelectuais de todas as \u00e1reas ou n\u00e3o, fomos forjados em l\u00f3gicas coloniais por longos anos, e hoje, n\u00e3o se supera tais l\u00f3gicas sem um trabalho consistente, te\u00f3rico-pr\u00e1tico, ao n\u00edvel de nossas subjetividades. N\u00e3o basta interferir na pr\u00e1tica e nos modos de viver e trabalhar, se n\u00e3o corrigirmos as rotas de nossas subjetividades e l\u00f3gicas, que se d\u00e3o em processos de produ\u00e7\u00e3o altamente complexos e invis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um trabalho precioso que se pode fazer em cada \u00e1rea, que Santos (2003) denominou de Sociologia das Aus\u00eancias, e que Mello (2008) prop\u00f4s como Pedagogia das Aus\u00eancias, no \u00e2mbito da Educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma Medicina das Aus\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como psic\u00f3loga e n\u00e3o m\u00e9dica vou registrar aqui algumas intui\u00e7\u00f5es que o pensamento decolonial pode nos inspirar no campo da Medicina e dos sistemas de cuidado com a vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em primeiro lugar, se entendemos, na l\u00f3gica decolonial, que os sistemas de conhecimento que o mundo produz s\u00e3o leg\u00edtimos para al\u00e9m da racionalidade e da ci\u00eancia &#8211; ali\u00e1s, basta lembrar que as grandes pir\u00e2mides do Egito, assim como a Medicina Tradicional Chinesa, entre tantas inven\u00e7\u00f5es que engendram sistemas complex\u00edssimos de conhecimento, apareceram muitos s\u00e9culos antes da chamada Universidade e da Ci\u00eancia Moderna -, j\u00e1 podemos denotar que um bom terapeuta, ainda que tenha sua linha de atua\u00e7\u00e3o, saiba transitar entre v\u00e1rias racionalidades m\u00e9dicas, para que possa ter uma vis\u00e3o abrangente acerca dos sistemas de cuidado com a Vida. Quem conhece apenas um sistema, mesmo que seja um hiperespecialista, sabe muito pouco da infinidade desse viver. E n\u00e3o se pode saber apenas de sua \u00e1rea, j\u00e1 que a vida \u00e9 sempre multidimensional. N\u00e3o apenas o que comemos nos adoece. Adoecemos por aquilo que acreditamos, que sentimos, adoecemos porque perdemos a nossa casa na enchente, porque algu\u00e9m perdeu seu filho, seu amor e seu emprego, porque um determinado pa\u00eds entra em guerra. Doen\u00e7a e sa\u00fade s\u00e3o realidades sist\u00eamicas. Um saber linear n\u00e3o d\u00e1 conta do sist\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Exatamente porque os conhecimentos s\u00e3o muito mais amplos que nossa capacidade de apreens\u00e3o, eles s\u00e3o complementares. Ent\u00e3o, um profissional de sa\u00fade n\u00e3o deve estar, na rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica com um paciente, como detentor de um saber sobre o outro algu\u00e9m, mas como algu\u00e9m portador de um saber colaborativo e cooperativo, aberto a se somar a muitos outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato da cultura m\u00e9dica sistematizar conhecimentos sobre a vida, de forma especialista, e o fato da cultura popular n\u00e3o ter acesso a estes conhecimentos b\u00e1sicos sobre sua vida, gera um desequil\u00edbrio muito grande nas rela\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-paciente, gerando um monop\u00f3lio no primeiro sobre o segundo, e uma aus\u00eancia de autonomia no segundo. O pensamento abissal est\u00e1 instalado a\u00ed (SANTOS E MENEZES, 2009): um grupo de \u2018sabich\u00f5es\u2019 diante de um grupo de \u2018ignorantes\u2019. Produzir o outro como ignorante faz parte de uma l\u00f3gica colonial. O que \u00e9 de fato ignor\u00e2ncia neste tipo de rela\u00e7\u00e3o: O colonialismo como premissa ou a realidade dial\u00f3gica entre dois sistemas de conhecimento diferentes que se encontram?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro aspecto que marca a colonialidade dessa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 que a ci\u00eancia \u00e9 composta de enunciados gen\u00e9ricos e protocolos gerais, como parte do seu m\u00e9todo, em detrimento da singularidade de cada vida humana. Ainda que se possa estudar tudo de uma determinada doen\u00e7a e de um corpo humano, na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, um m\u00e9dico se encontra sempre de uma singularidade humana aberta para o mist\u00e9rio da vida. Assim, a D. Maria e o Sr. Jo\u00e3o, nunca ser\u00e3o gen\u00e9ricos e nem pass\u00edveis de protocolos. Assim como seus processos de adoecimento s\u00e3o \u00fanicos, \u00fanicos tamb\u00e9m ser\u00e3o seus caminhos de equil\u00edbrio e cura. Por isso, a Medicina, mais do que uma ci\u00eancia, constitui-se como arte de cuidar e de curar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um fator important\u00edssimo na perspectiva decolonial da medicina \u00e9 que o m\u00e9dico precisa ser aquele que contribui no processo de autoconhecimento do paciente, e n\u00e3o que det\u00e9m conhecimentos sobre o outro. Isso, para uma \u00e1rea de conhecimento que \u00e9 hierarquicamente considerada superior em termos acad\u00eamicos, \u00e9 um grande desafio. Basta vermos que um m\u00e9dico graduado \u00e9 chamado de doutor, mesmo que n\u00e3o cumpra os requisitos acad\u00eamicos para receber tal titula\u00e7\u00e3o (como o doutorado e o p\u00f3s-doutorado). Contribuir com o processo de autoconhecimento do outro implica na abertura e no conhecimento para o sistema de cren\u00e7as do outro. Afinal, como nos ensina a psicossom\u00e1tica, um paciente adoece sob um determinado sistema de cren\u00e7as, e instaura o seu processo de restabelecimento da sa\u00fade ou n\u00e3o sob o mesmo sistema. Isso quer dizer que, entre o sistema de cren\u00e7as do m\u00e9dico e o sistema de cren\u00e7as do pr\u00f3prio paciente, o paciente sempre seguir\u00e1 sempre o seu sistema e n\u00e3o o do outro. O que pode haver \u00e9, mediante a uma transfer\u00eancia positiva com o terapeuta, o paciente permite alargar o seu sistema de cren\u00e7as com elementos que v\u00eam do m\u00e9dico que o atende. Quando isso n\u00e3o acontece, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. H\u00e1 atendimentos pontuais. Por isso muitos pacientes n\u00e3o voltam \u00e0s consultas e abandonam tratamentos. Esse fator vale n\u00e3o s\u00f3 para o que chamamos de senso comum, mas tamb\u00e9m para pessoas com n\u00edveis culturais mais elevados. E podemos compreender um sistema de cren\u00e7as, n\u00e3o apenas em seus fundamentos l\u00f3gicos, mas sobretudo emocionais e espirituais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses s\u00e3o alguns fatores que podemos considerar em uma perspectiva decolonial, em termos relacionais. N\u00e3o tocamos aqui nas quest\u00f5es de tecnologia, nas quest\u00f5es medicamentosas e nem mesmo na concep\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a e sa\u00fade e sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza, assim como as quest\u00f5es capitalistas das grandes ind\u00fastrias e seus interesses. Assim como n\u00e3o trabalhamos aqui reflex\u00f5es sobre pr\u00e1ticas alternativas de cuidado, como a Medicina Integrativa, que pode ser inovadora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 terap\u00eautica, mas ainda assim continuar colonial em sua perspectiva dial\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como este processo est\u00e1 em plena constru\u00e7\u00e3o, convidamos a todos os que se interessarem pela leitura, que possam ir fazendo suas pr\u00f3prias s\u00ednteses e construindo pr\u00e1ticas de ecologias de saberes, contra-epistemol\u00f3gicas, mais inclusivas e curadoras do sistema vida e da Medicina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea est\u00e1 lendo este artigo, sugiro que leia a parte I, onde o tema \u00e9 devidamente apresentado. Como se manifesta, hoje, o pensamento colonial, nas pr\u00e1ticas m\u00e9dicas? \u2013 Essa \u00e9 a quest\u00e3o deste artigo. 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