{"id":3557,"date":"2023-02-13T14:24:23","date_gmt":"2023-02-13T17:24:23","guid":{"rendered":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/a-escuridao-que-ilumina-a-vida\/"},"modified":"2023-02-13T14:24:23","modified_gmt":"2023-02-13T17:24:23","slug":"a-escuridao-que-ilumina-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/a-escuridao-que-ilumina-a-vida\/","title":{"rendered":"A ESCURID\u00c3O QUE ILUMINA A VIDA"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No cl\u00e1ssico filme de Akira Kurosawa, chamado Sonhos, de 1990, h\u00e1 um epis\u00f3dio, de nome Povoado dos Moinhos, em que um homem visita uma aldeia de moinhos e conversa com um dos moradores mais antigos. Na cena, o visitante se espanta ao saber que eles vivem sem eletricidade, com lamparina e \u00f3leo de linha\u00e7a. Quando pergunta ao idoso como isso \u00e9 poss\u00edvel, ele prontamente responde: \u201cN\u00e3o precisamos de eletricidade\u201d. Ele diz que as pessoas se acostumam ao que \u00e9 conveniente e se esquecem do que realmente \u00e9 bom. O visitante, ent\u00e3o, refere-se \u00e0 noite, como um problema, j\u00e1 que ela \u00e9 muito escura. E o idoso responde, com espanto, que as noites s\u00e3o escuras e que assim \u00e9 a sua natureza, e que \u00e9 maravilhoso que as noites sejam escuras, porque os dias j\u00e1 s\u00e3o claros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trazendo para a dimens\u00e3o existencial, o analista junguiano brasileiro, Roberto Gambini, deu uma entrevista, h\u00e1 muitos anos, para a Revista Bons Fluidos, em que diz que \u201co grande s\u00edmbolo inicial da nossa cultura \u00e9 dominar o fogo, saber acend\u00ea-lo de novo quando ele se apaga. Controlar a escurid\u00e3o.\u201d Ele chama a nossa cultura, de cultura da ilumina\u00e7\u00e3o, da claridade. Ele acredita que todo o progresso da cultura e da tecnologia \u00e9 resultado das explora\u00e7\u00f5es dessa escurid\u00e3o interna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certo \u00e9 que h\u00e1 quase dois s\u00e9culos a humanidade conheceu a l\u00e2mpada incandescente e, de l\u00e1, pra c\u00e1, mergulhamos no paradigma da ilumina\u00e7\u00e3o, de tal forma, que a escurid\u00e3o \u2013 em todos os seus sentidos -, passou a ser evitada e at\u00e9 temida. Ela se tornou sin\u00f4nimo de atraso. Assim como o sil\u00eancio. Perdemos a compreens\u00e3o da dimens\u00e3o de polaridade da exist\u00eancia. Entendemos que, se h\u00e1 luz, n\u00e3o precisa mais haver escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Roberto Gambini diz que \u201co excesso de luz urbana faz muito mal para a nossa alma, porque roubou e deformou a noite. De dia \u00e9 certo que seja l\u00f3gico, racional, produtivo. Mas, quando o sol se esconde, o tempo deveria ser dedicado a contar hist\u00f3rias, entregar-se \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, filosofar, fazer as coisas que durante o dia atrapalham a efici\u00eancia. Temos luz 24 horas por dia e amputamos o lado mais sutil, naturalmente proporcionado pela noite.\u201d \u2013 completa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Queremos uma vida ativa \u00e0s custas de uma vida contemplativa, como diz o fil\u00f3sofo Byung-Chul Han. E por isso perdemos o sentido da pr\u00f3pria exist\u00eancia a depressa, e a depress\u00e3o desponta como um dos grandes males deste s\u00e9culo. Para Gambini, \u201co grande desafio do ser humano, em todas as \u00e9pocas, \u00e9 conhecer o seu pr\u00f3prio escuro\u201d. \u201cS\u00e3o nos momentos de escuro da alma que acontecem as transforma\u00e7\u00f5es\u201d. Para ele, \u201ca depress\u00e3o \u00e9 o escuro que mais d\u00e1 medo\u201d. No entanto, ele adverte: \u201cA gente sabe, depois de 100 anos de psican\u00e1lise, que a \u00fanica cura poss\u00edvel \u00e9 entrar nesse buraco, pois l\u00e1 dentro existe uma vida que n\u00e3o foi vivida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que, para Gambini, a nossa cultura n\u00e3o forne\u00e7a imagens que nos ajudem a querer ir para o escuro, precisamos, mais do que nunca, restabelecemos esta rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre motivo \u00e0s pessoas que t\u00eam filhos pequenos a irem introduzindo estas pr\u00e1ticas. A garotada ama o fogo e a luz das velas, porque isso \u00e9 ancestral em n\u00f3s. Somos feitos desta mat\u00e9ria. Em torno de um fogo, os olhos das crian\u00e7as brilham, reluzentes. Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel o fogo, podemos escolher l\u00e2mpadas indiretas, amareladas, avermelhadas. O nosso corpo relaxa e sorri. Isso, associado a um bom banho, uma x\u00edcara de ch\u00e1 de camomila, e n\u00e3o h\u00e1 ins\u00f4nia e insanidade que perdure.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Terminemos a coluna deste m\u00eas com a docilidade de Mia Couto, em seus Contos do Nascer da Terra. Ele diz: \u201cPrecisamos da presen\u00e7a de outra luz. (&#8230;) N\u00e3o \u00e9 da luz do Sol que carecemos. Milenarmente, esta grande estrela dominou a Terra e n\u00f3s pouco aprendemos a ver. O mundo necessita ser visto por outra luz, a luz do Luar, esta claridade que cai com respeito e delicadeza. S\u00f3 o luar revela o lado feminino dos seres&#8230; S\u00f3 o luar revela a intimidade de nossa morada terrestre&#8230; Necessitamos n\u00e3o do nascer do Sol. Carecemos, sim, do crescer da Lua (&#8230;)\u201d. A escurid\u00e3o&#8230; que ela possa ser bem-vinda, esta preciosa mat\u00e9ria-prima, capaz de reconectar o humano e respeitar o ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Texto publicado originalmente na Revista Vento e \u00c1gua (@vento_e_agua) em setembro de 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No cl\u00e1ssico filme de Akira Kurosawa, chamado Sonhos, de 1990, h\u00e1 um epis\u00f3dio, de nome Povoado dos Moinhos, em que um homem visita uma aldeia de moinhos e conversa com um dos moradores mais antigos. Na cena, o visitante se espanta ao saber que eles vivem sem eletricidade, com lamparina e \u00f3leo de linha\u00e7a. Quando [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1285,"featured_media":3558,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[78,1],"tags":[],"class_list":["post-3557","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-maristela-barenco","category-sem-categoria"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1285"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3557"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3557\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3558"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/implantacaopro.xyz\/institucional-biofao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}